⚠️ Atenção: esta matéria contém spoilers do 3º episódio de Lanternas.
Depois de dois episódios construindo o mistério central de Lanternas, o terceiro capítulo da temporada decide diminuir o ritmo da investigação para responder a uma pergunta muito mais pessoal: quem é John Stewart e o que foi necessário para transformá-lo no homem que conhecemos hoje? Intitulado “OutKast”, o episódio funciona como uma história de origem, mas não está interessado apenas em mostrar o caminho de John até o anel. A série quer entender como sua infância, sua família e, principalmente, a expectativa de um dia ser escolhido pelos Guardiões moldaram sua personalidade. No centro de tudo está uma pergunta desconfortável: é realmente possível ensinar alguém a não sentir medo?
O destino que começou com seu pai
Uma das principais revelações do episódio envolve John Stewart Sr., pai de John, que esteve entre os homens considerados para integrar a Tropa dos Lanternas Verdes antes de Hal Jordan. Quando questionado pelos Guardiões, entretanto, ele admitiu sentir medo, e essa honestidade acabou custando sua oportunidade. A rejeição se transforma em uma ferida dentro da família Stewart, principalmente quando uma Guardiã, assumindo a aparência humana de uma mulher, posteriormente procura Bernadette e revela que John poderá receber no futuro a oportunidade que seu pai perdeu.
É justamente essa possibilidade que transforma completamente a maneira como Bernadette passa a criar o filho. Se anteriormente poderíamos imaginar que John Sr. fosse o principal responsável pelo treinamento extremo mostrado durante a infância de John, “OutKast” muda essa percepção ao revelar sua mãe como a figura mais rígida desse processo. Bernadette acredita que John precisará estar preparado para provar seu valor quando sua oportunidade finalmente chegar e, por isso, sua infância passa a ser marcada por treinamentos, pressão e situações destinadas a ensiná-lo a controlar o medo. Existe amor em suas atitudes, mas também existe um peso enorme sendo colocado sobre uma criança que cresce acreditando que qualquer demonstração de fraqueza poderá destruir o futuro preparado para ela.
O medo, os pássaros e a cena da maçã
Um dos detalhes mais interessantes do episódio explica a relação de John com os pássaros, algo que a série já vinha apresentando discretamente. Durante a infância, ele cresce acreditando que eles poderiam observar suas atitudes e transmitir aos Guardiões aquilo que estavam vendo. A história faz com que John viva praticamente sob avaliação permanente: cada comportamento, erro ou demonstração de medo poderia ser observado por aqueles responsáveis por decidir se ele seria digno de se tornar um Lanterna Verde. Quando descobrimos que aquilo não era verdade, o significado se torna ainda mais pesado. John não estava simplesmente sendo preparado para controlar seus medos; ele estava sendo condicionado a acreditar que não poderia demonstrá-los.
É nesse contexto que “OutKast” retorna à impactante cena da maçã apresentada anteriormente pela série. Inicialmente, vimos John ainda criança participando de um treinamento extremo envolvendo seu pai, mas agora o episódio oferece o contexto completo daquela situação. Em determinado momento, John precisa realizar o disparo e simplesmente não consegue. Ele sente medo — não necessariamente por si mesmo, mas pela possibilidade de machucar alguém que ama. Depois de conversar com a mãe e recuperar sua confiança, John afirma estar pronto novamente. Bernadette diz que chamará seu pai, mas John recusa e decide que será ela quem ficará naquela posição. Ele mira e consegue acertar a maçã sobre sua cabeça.
A sequência resume perfeitamente o conflito de “OutKast”. O medo de John não existe porque ele é fraco; existe porque ele se importa. Ao mesmo tempo, sua mãe acredita que prepará-lo significa fazê-lo ultrapassar justamente esse sentimento. A série não apresenta Bernadette simplesmente como uma mãe cruel, tampouco tenta justificar completamente suas escolhas. Ela acredita estar preparando o filho para sobreviver e conquistar uma oportunidade extraordinária, mas o episódio deixa evidente que esse treinamento também deixou marcas profundas.
Entendendo o John Stewart adulto
Depois de acompanharmos sua infância, várias características do John adulto interpretado por Aaron Pierre passam a ganhar outro significado. Sua postura rígida, o controle constante das emoções, sua capacidade de permanecer aparentemente tranquilo diante do perigo e até sua dificuldade de permitir que outras pessoas enxerguem suas vulnerabilidades deixam de parecer apenas traços naturais de personalidade. John passou a vida inteira sendo condicionado a acreditar que demonstrar medo poderia fazê-lo perder aquilo para o qual estava sendo preparado.
É justamente por isso que a atuação de Aaron Pierre funciona tão bem neste episódio. John é um personagem contido, mas isso não significa ausência de sentimentos. Pelo contrário: “OutKast” deixa claro que existe muita coisa acontecendo por trás daquela postura aparentemente inabalável. Pierre trabalha principalmente através dos olhares, silêncios e pequenas mudanças de expressão, permitindo que o público perceba que aquela segurança não surgiu naturalmente. Ela foi construída durante anos de treinamento, expectativas e pressão.
A relação com Hal Jordan também ganha uma nova dimensão depois dessas revelações. John cresceu sendo preparado para uma posição que Hal acabou ocupando antes dele. Seu pai teve a oportunidade e foi rejeitado; sua mãe dedicou grande parte da infância do filho para impedir que a história se repetisse; e John cresceu sabendo que um dia poderia ser chamado. Enquanto isso, Hal Jordan se tornou o Lanterna Verde. Isso significa que John, de certa maneira, passou boa parte da vida à sombra de alguém que sequer sabia de sua existência, tornando ainda mais interessante a dinâmica entre os dois agora que precisam trabalhar juntos.
Os Guardiões e o verdadeiro significado de não sentir medo
“OutKast” também coloca os próprios Guardiões em uma posição questionável. Ao procurar a família Stewart, avaliar John Sr. e posteriormente revelar o potencial de seu filho, eles interferiram diretamente no destino daquela família sem necessariamente compreender as consequências. Para os Guardiões, John poderia representar apenas um candidato promissor à Tropa. Para Bernadette, porém, aquela possibilidade se tornou uma missão. E para John, tornou-se praticamente o propósito de sua existência.
É aí que o episódio apresenta talvez sua discussão mais interessante. Ser um Lanterna Verde nunca deveria significar ausência completa de medo, mas a capacidade de enfrentá-lo. John, entretanto, cresceu acreditando que sentir ou demonstrar medo poderia torná-lo indigno. Existe uma diferença enorme entre coragem e repressão, e “OutKast” parece começar justamente a desconstruir essa ideia. Talvez o verdadeiro crescimento de John ao longo da série não seja aprender a ser destemido, mas compreender que reconhecer seus medos não diminui sua capacidade de enfrentá-los.
Veredito do Lanternas Brasil
“OutKast” é, até aqui, o episódio mais pessoal de Lanternas. A decisão de interromper temporariamente o avanço do grande mistério da temporada poderia prejudicar o ritmo da série, principalmente depois das revelações dos capítulos anteriores, mas acontece exatamente o contrário. Ao dedicar seu terceiro episódio à origem de John Stewart, a produção dá profundidade ao personagem e transforma vários detalhes apresentados anteriormente em peças de uma história muito maior.
O maior mérito do episódio está em não oferecer respostas simples. Bernadette preparou John para o futuro ou colocou sobre ele um peso que nenhuma criança deveria carregar? Seu pai fracassou ao admitir que sentia medo ou demonstrou justamente a humanidade necessária para compreender o verdadeiro significado da coragem? Os Guardiões reconheceram o potencial de John ou interferiram em uma família sem considerar as consequências? “OutKast” permite que todas essas perguntas coexistam.
Depois deste episódio, John Stewart deixa de ser apenas o novo Lanterna Verde que acompanha Hal Jordan na investigação. Passamos a compreender o homem por trás do anel e, principalmente, as cicatrizes que ele carrega. John não nasceu sem medo. Ele passou a vida inteira sendo ensinado a enfrentá-lo, escondê-lo e, muitas vezes, carregá-lo sozinho. Agora, talvez seu maior desafio seja descobrir que sentir medo nunca foi aquilo que poderia torná-lo indigno de ser um Lanterna Verde.
Nota do Lanternas Brasil: 9/10
Review e texto: Lanternas Brasil.